Negritude e ancestralidade são destaques na 15ª Mostra Unifor de Cinema

De 12 a 15 de novembro, no Cinema do Dragão, a Mostra Unifor de Cinema exibe produções que refletem a força da identidade negra no audiovisual contemporâneo

O cinema é território de memória e resistência. Na 15ª Mostra Unifor de Cinema (MUC), que acontece de 12 a 15 de novembro, sempre às 19h, no Cinema do Dragão, jovens realizadores e realizadoras da Universidade de Fortaleza (Unifor) apresentam 18 curtas-metragens que refletem o audiovisual brasileiro em diálogo com o tema “Cinema em tempos de Brasil”. Entre as produções selecionadas, quatro obras destacam narrativas que atravessam as experiências da negritude cearense, reafirmando o papel do cinema como ferramenta de afirmação cultural e construção de identidade. As sessões têm acesso gratuito.

No documentário “Koisa de Preto”, Mariana Costa, diretora do filme e estudante do Curso de Cinema e Audiovisual da Unifor, revisita as memórias do bloco carnavalesco homônimo que movimentou Lagoinha, no litoral do Ceará, nos anos 1990. Por meio de imagens de arquivo e depoimentos, o curta-metragem resgata uma celebração familiar em torno do samba e do pertencimento negro, evidenciando a potência comunitária.

No curta “Vai Ser Sal”, o diretor JD Marques mergulha na trajetória de Michael Rizzi, MC, poeta e integrante do grupo Street 8. A partir da voz e vivência do artista no bairro Curió, o filme conecta o rap à luta contra o racismo estrutural, revelando o poder da arte como linguagem de formação de identidade periférica.


Já “O Que Nos Resta”, dirigido por Bruno Lobo La Loba, acompanha a rotina de Dinha, mulher negra, catadora de recicláveis e criadora de conteúdo digital nas comunidades da Vila Betânia e Serrinha, em Fortaleza. Transformando objetos descartados em novas possibilidades de vida, Dinha encarna a força da mulher negra que sustenta, acolhe e recria mundos.

Encerrando esse conjunto de narrativas, o filme “Não Vai Ter Milagre”, de Andreza Ohana, apresenta Amara e Brenda, um casal de namoradas que, ao decidir ir a uma festa à fantasia, se vê diante de uma dupla de assassinos. Frente à violência e ao preconceito, as personagens tomam o controle da própria narrativa, subvertendo o gênero do terror e reivindicando sobrevivência e autonomia.


Essas produções revelam a pluralidade de vozes que emergem do cinema universitário cearense. “O cinema contemporâneo vive um momento de grande potência criativa, especialmente no Nordeste, e queremos colocar essas experiências em perspectiva histórica, debatendo o cinema que fazemos atualmente”, afirma Bete Jaguaribe, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor.


Curadoria e diversidade estética

A curadoria da 15ª MUC é assinada por Ana Paula Vieira, Bruno Juru e Valdo Siqueira, integrantes do corpo docente do Curso de Cinema e Audiovisual da Unifor. A proposta da curadoria costurou diferentes experiências de encontro entre narrativas e estéticas, numa programação de três sessões, cada uma delas nomeadas a partir do que sugerem as poéticas dos curtas-metragens.

Na sessão de abertura, no dia 12, denominada Transe da Subjetividade, os curtas entrelaçam luzes, rezas, águas e lembranças. Já a sessão Imagens de Pertencimento, com exibição no dia 13, destaca filmes que exploram pertencimento e identidade em múltiplas linguagens, do documentário à comédia. A terceira sessão, Mundos em Deriva, com filmes nas telas na sexta-feira (14), traz obras que transitam por universos fabulares e subjetivos, articulando invenção, desejo e imaginação.

Cinema brasileiro: tempo passado e futuro

Além dos curtas, nesta edição, a MUC encerrará sua programação com a exibição de um clássico da cinematografia brasileira. Em 2025, o escolhido é “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, obra fundamental do documentário brasileiro.

“É uma forma de colocarmos o nosso cinema contemporâneo numa perspectiva histórica, num gesto de reconhecimento da experiência cinematográfica do país, que é extraordinária, repleta de premiações, mas pouco vista pelos próprios brasileiros e brasileiras”, completa Bete Jaguaribe.

“Cinema em tempos de Brasil” também evoca o título do livro “Brasil em tempos de cinema”, escrito por um dos mais importantes pensadores do cinema brasileiro, Jean-Claude Bernardet, que faleceu em julho deste ano. “A referência à obra dele é uma convocação para a memória da nossa experiência audiovisual. Chegamos aqui através de um processo coletivo, cheio de desafios, com dezenas de artistas envolvidos, em mais de cem anos de história”, afirma.

Fotos: divulgação

Programação completa

SESSÃO 1 – Transe da Subjetividade | 12/11, às 19h

O dia em que fomos aos cinemas (2024) | 05’39”
Dir. Gabri Lima
Cor | Documentário | Livre

Ladainha (2025) | 19’48”
Dir. Marcelo Marallo
Cor | Ficção | Livre

Entre nós e linhas (2024) | 17’06”
Dir. Ariel Arraes
Cor | Documentário | Livre

Alpendre (2025) | 09’18”
Dir. Pedro Rodrigues e Gabriel Pinheiro
P&B | Ficção | +14

Paralelas (2025) | 17’00”
Dir. Igor Mota
Cor | Documentário | Livre

Para César (2025) | 14‘54“
Dir. LP Arruda
Cor | Ficção | Livre

SESSÃO 2 – Imagens de Pertencimento | 13/11, às 19h

Vai ser sal (2025) | 22’33”
Dir. JD Marques
Cor | Documentário | +12

O que nos resta (2024) | 24’00”
Dir. Bruno Lobo La Loba
Cor | Documentário | +14

Tarot (2025) | 11’49”
Dir. Thereza Dayanara
Cor | Ficção | +16

Koisa de preto (2025) | 19’36”
Dir. Mariana Costa
Cor | Documentário | Livre

Não vai ter milagre (2025) | 15’22”
Dir. Andreza Ohana
Cor | Ficção | +14

SESSÃO 3 – Mundos em Deriva | 14/11, às 19h

Red Hood & Big Bad Wolf (2025) | 01’52”
Dir. Sarah Khaam
Cor | Animação | +10

Haus of Mercury (2025) | 19’55”
Dir. F. Oliveira e Thiago Neres
Cor | Documentário | +16

Ultravioleta (2025) | 18’32”
Dir. Rafael Coelho
Cor | Ficção | +16

Quimérico (2025) | 14’29”
Dir. Izaaaki
Cor | Ficção | Livre

Brazil Simulator (2025) | 08’03”
Dir. Renato Barros de Oliveira
Cor | Animação | Livre

Borboleta no aquário (2025) | 08‘30“
Dir. Valdir Gomes
Cor | Ficção | +12

Lascívia (2025) | 17‘13“
Dir. Júlia Moreira
Cor | Ficção | +16

SESSÃO ESPECIAL | 15/11, às 19h

Cabra marcado para morrer (1984) | 119‘
Dir. Eduardo Coutinho
Cor | Documentário | +12

Serviço:

15ª Mostra Unifor de Cinema
Quando
: de 12 a 15 de novembro de 2025, às 19h
Onde: Cinema do Dragão (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)
Entrada Gratuita